domingo, 28 de junho de 2015

Dubrovnik , verdadeiro Porto Real

Uma coisa que descobri sobre a Croácia é que ela merece uma visita mais demorada.  O casal de mineiros (com o filhinho), que conhecemos na saída de barco, vinha passeando pelo país com um carro alugado, e já tinha passado por  Zadar, pela capital e pelos famosos lagos Pilvitce antes de chegar a Hvar; após a frustração de não ter podido ver as cavernas, iria o casal de Beagá para Dubrovnik, assim como nós. E tinham uma expectativa em relação à cidade, assim como nós. Não fiquei sabendo como foi o encontro deles com  Dubrovnik; o nosso, porém, excedeu a expectativa.
Imaginem um forte de pedras claras contra o mar azul. Muralhas que cercam  ruelas de filme, fontes, igrejas, um porto para levar a imaginação para pontos ainda mais distantes.  Duas pontes levadiças em lados opostos para entrar e sair da cidade, cercadas de flores e de laranjeiras carregadas de frutos. A impressão de que, a qualquer momento, Jaime Lannister ou Arya Stark serão vistos, no alto das muralhas ou nas pedras das docas. Dubrovnik é Kingsland (ou Porto Real), a capital de Westeros. O reino de ficção mais famoso da atualidade, obra da imaginação prodigiosa de R.R. Martin, e da caprichada produção dos feras da HBO. Set de locação de diversos capítulos da série épica "Game of Thrones", os mapas turísticos de Dubrovnik já apontam os locais onde foram rodadas cenas de "As Crônicas  do Gelo e Fogo" e guias oferecem uma excursão a pé com explicações sobre curiosidades ocorridas durante as gravações, além de levar os fãs sequiosos a lojas que vendem produtos autorizados dos Sete Reinos.
Dubrovnik é  demais! Para mim me pareceu quase com  uma parque da Disney, só que histórico. Houve momentos que quase duvidei ser real, e um comentário do Luis reforçou essa impressão, reparando os muitos telhados novos de algumas construções, mas de que maneira alguma deixam de harmonizar com o conjunto arquitetônico da cidade. Só mais tarde , no dia seguinte, iria entender o porquê.
O passeio nas muralhas é imperdível. Sugiro fazer sem pressa, apreciando mesmo, parando para fotos, se permitindo tempo para entrar no clima . Imaginar como era morar numa cidade murada, incrustada junto ao mar. O título de "Pérola do Adriático" é adequado. De preferência, ir no finzinho da tarde, aproveitando a luz mágica desse horário, e também para fugir do sol quente.  À noite, Dubrovnik fica ainda mais mágica e movimentada, com todos os turistas que estiveram passeando nas imediações procurando os muitos restaurantes e kanobas para jantar nas ruelas de pedras claras e polidas, iluminadas por lampiões. Pena que não houve tempo para ouvir o concerto de violinos no mosteiro franciscano às 21 horas, de visitar o palácio Sponza por dentro, e de conhecer todas as igrejas, que são muitas, algumas sofrendo restauração no seu interior. Porém não pode ter sido coincidência que, ao procurar por mais um ponto que foi cenário de GoT, tenha entrado em uma linda, com colunas de mármore rosa ( tão familiares!). Foi o Luis quem descobriu:  Igreja de Santo Inácio...  Mistura de ficção e realidade, tão parecida com a nossa igreja aqui, por dentro, e muito parecida, por fora, com a Casa do Preto e do Branco, da série, templo do deus de muitas faces... A escada que leva ao patamar onde fica a igreja é a escada da antológica cena da rainha Cersei, no bombástico último capítulo dessa temporada. Eu estive lá ! Dois dias antes de ver a season finale, num ônibus a caminho de Split... Mas essa é outra parte da história...
Dubrovnik conta com um teleférico moderno, que leva os turistas para uma visão panorâmica da cidade, do alto do Mount Srd.  Nossa anfitriã Petra nos explicou que o teleférico, por ser uma iniciativa particular, não é muito bem visto pelos habitantes, pois a renda arrecadada não reverte, como no caso das atrações históricas, para o interesse público. Porém lá em cima da colina fica o Forte Imperial, que segundo ela, valeria uma visita. Assim, turistas que éramos, pegamos o bondinho,  embora depois tenhamos descoberto que um caminho em zigue- zague dá acesso à pé ao forte, para quem não estiver disposto a caminhar e não quiser desembolsar suas kunas com o transporte.
E lá em cima, no forte simples com nome tão pomposo, construído há pouco  mais de duzentos anos (durante a ocupação de Napoleão) , como uma sentinela de uma cidade que está lá desde o século  VIII  ( isso mesmo, século oito! ) você tem um choque de realidade e começa  a entender melhor a  cidade, e a Croácia. E gostar dela ainda mais.
O Forte Imperial é hoje um museu, mas eu diria que é mais um memorial, do ataque sérvio à cidade, em 1991. Guerra que durou quatro anos, resultado da não-aceitação da independência do país do antigo bloco socialista iugoslavo. Aquela cidade de bonecas, de maquete, de filme, foi bombardeada pelos sérvios, que não se importaram com doze séculos de história. Quem tem a nossa idade hoje, tinha 30 anos durante a guerra, ou seja, muitos da nossa idade já eram pais e mães nessa cidade sitiada. O forte foi o símbolo da resistência ao ataque do exército da Sérvia, belicamente muito superior do que os despreparados e pobremente armados soldados croatas.  Ver, em fotos, lugares destruídos e bombardeados nos quais, agora, posamos pra foto, permite um entendimento menos raso desse povo ainda meio desconfiado; povo que olha a massa de turistas como potencial de crescimento mas ainda com cerimônia, com um certo distanciamento cauteloso.  As telhas novas nos telhados não são sinônimo de um falso cenário, mas da reconstrução ainda em andamento. A Croácia luta também com um governo corrupto, palavras do próprio Mark, motorista do hotel Podstine. O que nos faz, brasileiros e croatas, ainda mais próximos...





quarta-feira, 24 de junho de 2015

Dois dias em Hvar é (muito) pouco

Quando escolhi Hvar como destino na Croácia, foi devido a fotos e relatos que me mostraram um lugar de mar bonito, passeios de barcos, cavernas azuis e praias atraentes. Hvar contudo é famosa também por ser um lugar de balada, com bares em praias nas ilhas próximas, e que promovem festas até a madrugada, oferecendo retorno "seguro" em táxis-boats. Essa não era a nossa vibe mas talvez explique a quantidade maciça de brasileiros por lá, principalmente jovens.
Hvar tem um astral assim meio Búzios. Muitas prainhas a serem visitadas, principalmente de barco , mas não pense que vai encontrar lá alguma areia, no máximo aquela praia de pedrinhas brancas que machucam o pé. Crocs ou Havaianas são a dica pra quem não quiser investir nas sapatilhas próprias para andar nesse tipo de litoral. O mar é de um azul claro no raso, muito por conta dessa falta de areia, e de um lindo  azul profundo no horizonte. A ilha oferece outros pontos que merecem ser conferidos, além do centrinho de Hvar; não  houve tempo, entretanto, para um passeio de  bike para explorar a ilha, como eu desejava. É, o tempo escorre rápido mesmo nos longos dias de sol que o horário de verão propicia. Saímos para um passeio de lancha às famosas Blue Cave e Green Cave, com parada para almoço em alguma outra ilha e fim de tarde na praia de Palmiziana.  Na saída,  porém, ficamos sabendo que a ida à caverna azul não seria possível, devido às condições do mar.  Mar mexido? Hummmmm.  Nessa viagem concluí, conscientemente, que o que gosto do mar é a praia ! Volta, que eu quero ficar em terra firme !  Já que voltar atrasaria muito o passeio ( havia mais dois casais com a gente, sendo um casal brasileiro com um menininho pequeno) , o marujo nos deixou na Praia de Palmiziana, que seria a última parada do passeio, dizendo que nos buscaria entre quatro e cinco da tarde. E assim passamos horas de descanso numa prainha gostosa, com direito a um almocinho caprichado... E, quando fomos resgatados, descubrimos que ninguém viu caverna nenhuma, só sacudiu pra lá e pra cá num mar inóspito...  E nem desceram na última parada,  de tão enjoados que estavam, só pararam lá mesmo pra nos buscar... Ah, obrigada, Senhor, por eu ter dado piti e ter ficado ali naquela prainha...
De volta ao hotel, um banho e saímos de novo para o Centro: o rapaz da lancha havia dado uma dica de um restaurante fora do circuito "pega-turista", com uma fabricação própria de vinhos, e fomos lá conferir. De fato, o público do Luviji era de locais, croatas bebendo, comendo  e rindo, embora um casalzinho bem jovem de ingleses tenha aparecido por lá.   Aprendi depois que era um ( ou uma?) konoba, ou seja, um restaurante de família . Lugarzinho simples e bucólico, no alto de uma escada de pedra atrás da igreja, com comida mais típica: os croatas se enchiam de bandejas cheias de carneiro mas eu escolhi algo mais leve, uma sopinha de peixe, enquanto o Luis acompanhou o vinho da casa com um prato de carne com champignons. O melhor mesmo foi o bolo de chocolate com geléia de figo e damasco pra fechar a noite, que infelizmente era a última: no dia seguinte sairíamos cedo pra Dubrovnik, sem ter dado tempo de explorar mais Hvar e as outras ilhas... Mas quem sabe a gente volta !

domingo, 21 de junho de 2015

Por que a Croácia?

Há alguns anos atrás certamente esse país não estaria no roteiro da minha primeira viagem ao velho mundo.  Mas, ao contrário dos que muitos pensam, a História é viva e dinâmica, assim como os interesses e desejos da alma, e a Croácia entrou no roteiro por vários motivos, os quais explico:
A Croácia fica muito perto da Itália. Tem inclusive uma fronteira marítima com esse país, e de Roma é possível tomar um voo de menos de uma hora para várias cidades croatas.  Muitas dessas cidades, que agora estão figurando na preferência dos turistas brasileiros, ficam no litoral do país, ou em suas ilhas, o que garante paisagens espetaculares, as rochas brancas do relevo local em contraste com pinheiros verdes e o azul  do mar Adriático. Além disso, para os amantes de História e histórias, a Croácia tem sido cenário de enredos complexos e apaixonantes, tanto na vida real como na ficção, sendo local de filmagens da maior saga dos últimos tempos, Game of Thrones.
Nossa chegada foi por Split, cidade litorânea com um porto que faz conexão com as diversas ilhas e demais cidades  do litoral através de uma malha de ferries-boats.  Como nosso voo vindo de Roma atrasou, perdemos o ferry que nos levaria a Hvar ( pronuncia-se, Ruá, ou algo assim...) Aproveitamos então  pra andar por Split, pois o último barco para a ilha sairia só quase três horas depois.
Split tem um quê de Nice, tendo até mesmo uma promenade, e a mesma charmosa e maciça presença italiana nas ruas, gelatos e pizzas em todos os cardápios.  Porém você começa a sentir que está em contato com outra cultura, primeiro ao ter que trocar seus euros por kunas, e pelo choque do idioma, tão diferente. Ah, tudo bem, quase todo mundo tenta arranhar um pouco de inglês, então  vai dar tudo certo. Pois os croatas sabem que o grande potencial de crescimento do país repousa nesses milhares de turistas, os quais eles ainda olham, contudo, com um pouco de desconfiança, pelo menos foi essa a minha primeira impressão.
Split guarda um substancial conteúdo histórico que infelizmente não foi possível explorar, por falta de tempo. Com origem grega, e tendo sido parte do império romano, abrigando inclusive o palácio do Imperador Dioclesiano, trocou de mãos ao longo dos séculos, fez parte da República de Veneza, foi dominada pelo império húngaro,  e no passado recente fazia parte, como o resto da Croácia , da socialista Iugoslávia.
Já era hora de embarcar, contudo, e corremos pro porto, onde fiquei impressionada com a nossa embarcação: era enorme, capaz de levar carros e caminhões, e nem parecia que se estava a bordo, já que a disposição dos assentos formava várias núcleos, como se fossem pequenas salas de estar. Conforto mais que bem vindo já que a travessia duraria mais que a esperada uma hora, pois teríamos que desembarcar mais longe na ilha, em Stad Grad.  Quase onze da noite, enfim, depois de resgatados pelo transfer, chegamos ao hotel Podstine, numa das extremidades da ilha, depois de um longo dia que tinha começado em Roma as quatro horas da manhã...

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Todos os caminhos levam a Roma !

Expectativa.  Frisson.  Finalmente, o tão esperado dia de reencontrar nosso filho,  que andou perambulando pela Inglaterra e Holanda. Volltamos à Florença para devolver o carro alugado e tomar o trem para Roma.  Nosso encontro seria na Termini, estação central de trens da capital italiana.  Daniel viria de Amsterdam de avião e tomaria o Leonardo Express, trem que liga o aeroporto Fumiccino à estação ferroviária. Como ele chegaria primeiro, nos esperaria na plataforma de chegada do trem 9525, o nosso trem.  Que atrasou. Devido, segundo disseram, a um problema na linha. Tentamos trocar a passagem mas a atendente da Trenitalia nos convenceu que o outro trem demoraria mais a sair.  Partimos com atraso de uma hora.  Tudo para aumentar a expectativa! Com a Graça de Deus chegamos, enfim, e reencontramos o filho nos aguardando pacientemente, depois de tomar um café, já que tinha acompanhado o atraso do trem no placar da estação.
Acho que Roma é mesmo o centro do mundo. Todos vêm aqui, de todas as nacionalidades e credos, olhar de perto as ruínas de um império que até hoje nos fascina. Roma nos atrai com um magnetismo inexplicável, e o Coliseu é o símbolo máximo dessa atração. É como uma ciranda inevitável contornar o estádio, e penetrar nas suas formas é um chamado insistente, que tem que ser atendido. Como explicar que um lugar, destinado a lutas sangrentas e injustiças, possa atrair a todos de forma tão  hipnotizante? Que conhecimento da alma humana já tinham os romanos, quando aplicavam a máxima do "pão e circo?"
Não basta entrar no estádio. É preciso tocar no Coliseu, nas pedras frias dos arcos, onde a ventilação natural oferece alívio do sol já escaldante da primavera. É preciso subir suas escadas, encostar nas muradas, olhar a arena.   Achar uma fonte de água potável para aliviar o calor. As explicações do audioguide são necessárias mas não  conseguem transmitir o que é estar no cenário vivo da história aprendida nos livros, vista nos filmes.
Roma é um tesouro para quem gosta de história. E de histórias. Sim, você sabe que muitas vezes só vai encontrar um amontoado de pedras, um muro de tijolos antigos, um fragmento de mármore trabalhado ou o que restou de algumas colunas.  Mas isso faz parte do charme de Roma. Imaginar como teria sido, e ver tantas escavações arqueológicas em curso, nos faz sentir quase como participantes daquela aventura histórica. Dá vontade de ler sobre cada templo, cada fato, sobre  césares e sobre deuses, seus romances e intrigas. De assistir Gladiator pela enésima vez. A areia , porém, escorre sem dó pela ampulheta, é preciso correr, seguir em frente , Roma tem tanto pra ver...  É preciso "ticar " a Piazza Navona, com sua fonte e restaurantes, a Fontana di Trevi ( que está em reforma !), a Piazza di Spagna, também em obras, e o Duomo, sensacional obra de engenharia , e ainda intacta, por ter sido, segundo soube, sempre uma construção com uma finalidade ao longo das épocas, nunca abandonada.
Um buraco na calçada mudou o rumo do nosso roteiro quando saímos à noitinha, para ver o Colosseo iluminado. Daniel torceu o pé e, com dores, precisou retornar ao Brasil mais cedo. Tão tipicamente romana essa virada no enredo ! Com passagem  comprada para a Croácia, tínhamos, eu e Luis, que seguir em frente, sem ir ao Vaticano... Será ?

sábado, 13 de junho de 2015

Um dia em Siena e Cortona

Há dias em que o Universo realmente parece conspirar a favor.  Foi assim com Siena. Uma estrada boa e bem sinalizada nos levou até a cidade, e já ao estacionar, ouvimos o som de tambores rufando. Como assim? Festa? Afinal não era a época da corrida de cavalos na praça central, que empresta fama ao lugar... Logo descobrimos uma procissão de rapazes e homens, vestidos de vermelho e branco, tocando tambores, e mulheres e velhos acompanhando, de lenços vermelhos e brancos no pescoço. Não sei se por ser domingo, ou talvez alguma data especial, só sei que o cortejo seguiu pela rua até uma igrejinha ali perto, onde entraram, gritaram algumas palavras, rufaram os tambores, e saíram fazendo o sinal da cruz. Uma tradição local, imagino.  Alguns rapazes ainda fizeram malabarismos com suas bandeiras, só de farra, e lembrei de imediato,  do filme da Frances Meyers.
Foi muito gostoso andar por Siena, ver suas igrejas de arquitetura similar às de Florença.  A praça central, com seu caimento para o meio, e rodeada por cafés e restaurantes, fontes de água potável , e o imponente Palácio Público.  Sentamos em frente à Catedral e, coincidência, os sinos começaram a tocar, dando um toque especial à contemplação. Perambulando, encontramos uma lojinha de frutas , com uvas que eram um show, e uma loja de brinquedos antigos, com um "ronrom" estacionado à porta.
Ficaria em Siena por mais tempo. Decidimos porém pegar o carro por mais uma hora e chegar até Cortona, afinal o dia estava lindo, e era o local da história da Mayers.
Cortona fica no alto de uma elevação. A estrada serpenteia até lá em cima, e deixamos carro na entrada do vilarejo, no estacionamento com parquímetro. Fomos subindo as ruazinhas, escolhendo um lugar para almoçar. Cortona tem bandeiras penduradas nas ruas, como San Giminiano, embora  aqui elas sejam amarelas e brancas. Lojinhas de souvenirs em casinhas de pedra.  Tudo muito bonitinho.  Enquanto comia uma pizza com rúcula e parmesão em lascas, acompanhada de uma taça de vinho, perguntei à garçonete onde ficava a fonte, onde, no filme, a personagem Frances come uvas enquanto escreve um cartão postal.  A garçonete respondeu que a fonte não existia!  Que foi feita apenas para o filme, e depois desmanchada. Não fiquei sabendo se a informação era verdadeira ou não, guardei as minhas uvas de Siena para comê-las mais tarde. E não fui procurar por  Bramasole, melhor mesmo deixar por conta da imaginação... Para o Luis,  Cortona foi melhor que Siena, por ser assim menorzinha.  Pra mim, no entanto, Siena foi uma descoberta emocionante, com seus tambores, sinos, frutas e flores...

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Literalmente sob o sol da Toscana

Partir de Florença não era fácil. Porém a viagem precisava continuar, e havia à nossa espera uma fattoria, a versão italiana ( menor e mais charmosa) do nosso hotel- fazenda.
A Fattoria Voltrona, como tantas outras na região que estavam abandonadas há algumas décadas,  ganhou vida nova com o agriturismo. Quando a industrialização dificultou a vida das famílias tradicionalmente agrícolas, muitas abandonaram o campo e foram buscar novas oportunidades nos centros urbanos. Voltrona era só ruínas quando foi comprada pelo atual proprietário, que ainda tentou, sem sucesso, estabelecer uma produção leiteira.  Nos anos oitenta, alguns alemães pediram para hospedar-se na fazenda, para espanto do dono, devido à total falta de estrutura das casas da propriedade. Esse foi o começo  de um negócio que tem dado muito certo.
Voltrona fica a menos de seis quilômetros de San Giminiano, que é mais uma  cidade medieval, com suas torres, ruas estreitas, muros de pedra , lojinhas e muitos restaurantes.  Jantamos no Le Vecchie Mura, que tem um terraço panorâmico sobre o vale. A comida nem é lá essas coisas, mas vale o ambiente e a vista.  Voltrona também serve de base para tiros mais longos, como Siena, Volterra ou Cortona. Claro, um carro é essencial para realizar esses passeios. E voltar deles no fim da tarde, sob o sol de quase trinta e cinco graus da Toscana, e encontrar uma piscina com borda infinita para as videiras é, no mínimo, reparador! O café-da-manhã também é um ponto alto da fazenda, com geléias caseiras e um iogurte maravilhoso. Há cavalos pra quem quiser montar, e aluguel de scooter, mas o bacana mesmo é curtir a visão dos ciprestes italianos, suas sombras se esticando sobre o gramado por conta do sol que não quer deitar,  passar os olhos pela ondulações verdes de videiras, e sentir o aroma das flores de lavanda.
Não fomos a Volterra ( apesar do local ter ganho destaque por causa da Saga Crepúsculo). Preferimos rumar pra Siena  e, quem sabe, Cortona...

terça-feira, 9 de junho de 2015

Florença no coração

Todo mundo que eu conheço que já esteve em Florença fala super bem da cidade e comenta que é preciso conhecê-la. Certo,  sabia que havia muito o que ser visto, mas confesso que tinha uma impressão de que, no fundo, Florença seria uma cidade chatinha com uma localização ótima, pois a partir dali seria mais fácil conhecer cidades menores da região da Toscana.
Florença me surpreendeu. Mais que isso, Florença me encantou.  Talvez porque tenhamos sido tão bem recebidos no hotel que seria "o mais fraquinho" da viagem, e que, todo reformado, se revelou uma grata surpresa. Porque recebemos do staff do hotel toda as informações necessárias, como ir aos  pontos mais importantes, qual ônibus tomar para chegar à Praça Michelângelo a tempo de assistir ao pôr-do-sol se refletir nas águas do rio Arno... Informações tranquilizadoras de como a cidade é segura , a dica do Mercado Centrale com seus restaurantezinhos tipo Cobal do Humaitá... O Gerente do hotel, Maurício, alegre e brincalhão, que deu um jeito do wifi voltar a funcionar no meu tablet...  A feirinha de produtos em couro na rua ali em frente, luvas femininas de todas as cores combinando com as bolsas, jaquetas e carteiras masculinas e casacos femininos elegantes e diferentes.... E a lanchonete Focacine, então, que vende pizza a taglio (pedaço)  deliciosa, por 2 a 4 euros...
Uma localização bem escolhida em Florença faz toda a diferença,  pois estando dentro ou mesmo perto do Centro Histórico, é possível ir aos principais pontos turísticos a pé, da Ponte Vecchio à Galeria dell'Accademia, onde está o verdadeiro Davi, do Mestre Michelângelo.  E a cidade, com as suas muitas ruazinhas de pedestres, e turistas de todas as nacionalidades,  é alegre sem ser caótica, é limpa, é organizada, pareceu-me Florença uma cidade em festa com a chegada do calor e dos euros dos viajantes, ávidos por ver tantas esculturas e obras de arte na Uffize ou mesmo a céu aberto.
Florença também revelaria outras emoções, pelo menos para mim: não contava visitar as Galerias e, ver de perto obras de arte tão famosas, me levou de volta ao primeiro ano do ginásio... Meu livro de História da quinta série, recordo bem, tinha uma foto colorida, ocupando toda a página, da escultura de Davi...  Um outro lapso de tempo, e estava eu de volta à sala de aula de História da Arte da faculdade, as cortinas fechadas sobre as venezianas de madeira para que pudéssemos vislumbrar , nos slides esmaecidos da velha professora, obras como O Nascimento de Vênus, de Botticelli. Fiquei refletindo sobre o fato de que, nas duas épocas, não poderia imaginar que veria ambas as obras de perto... Na praça della Sigonorina, a escultura de Hércules derrotando o centauro Nessus me fez lembrar Daniel pequenino, com sua fita VHS do desenho e seus bonecos de ação dos dois personagens mitológicos... Meu menininho que, agora um  jovem, estava viajando sozinho por outro pais, vencendo também seus desafios...
Dizem que cada lugar se revela ao viajante de uma forma, e é verdade.  Pois cada viajante traz consigo a sua bagagem emocional , e muitas vezes o que é desinteressante para um é especial para outros.  Para mim,  Florença falou ao coração...