terça-feira, 9 de junho de 2015

Sereníssima

Acho que não falei tanto sobre Veneza como a mesma merecia... Veneza foi nossa porta para Itália, e chegar à Itália é quase como chegar em casa. Sei lá, foi uma sensação gostosa de ser bem acolhida. Em Veneza nosso anfitrião Christian nos buscou no aeroporto Março Polo de carro, suado e um pouco atrasado, como todo bom italiano falando pelos cotovelos. Uma graça, o Christian. Fomos recebidos muito bem, e como ainda faltava uma hora para o checkin, ficou com nossa bagagem e nos aconselhou o "Piero", uma tratoria ali na rua mesmo, para que matássemos a fome por um preço justo, antes de encararmos a lindíssima ( e caríssima) Veneza histórica. Ensinou qual ônibus tomar, aonde, e a que horas era o último para voltarmos, nos adiantou os bilhetes de ida e nos orientou a comprar o passe de 24 horas, que dá direito a transporte por terra ou por água ( ônibus e vaporetos). Riu da nossa pergunta se o lugar era seguro, não, não há problema, podem chegar à hora que quiserem, só empurrar o portão... Pousada limpa , quarto com ar condicionado  e banheiro moderno. Mas o melhor foi ser acolhida  assim, de um jeito caloroso e quase brasileiro.
Veneza  é linda. Principalmente depois que você a deixa, fica aquela impressão que você ( e mais um milhão de turistas) passou por um lugar especial.  Veneza tem seus problemas, e o próprio turista é um deles, aquele que deixa lixo, que não se importa, que tagarela sem noção... Tem a exploração do mesmo turista, de um jeito que deve ser característico da cidade, em qualquer lugar , não importa muito o  que você consumir vai acabar dando, no mínimo, dez euros. Veneza têm camelôs indianos e africanos vendendo suporte para fazer "selfie" com o celular, como em outros lugares por quais passamos, Paris, Avignon,  Nice. Veneza também tem um ou outro esmoleiro, mas o que mais me espantou são as mulheres, a la muçulmanas,  que quase  se deitam no chão, em posição de súplica, com seu copinho de papel para as esmolas. Estavam também na Champs d' Elyses, em Paris, de unhas pintadas e esmolando...
Veneza tem seus encantos, principalmente quando o sol baixa, os grupos de visitantes começam a ir embora, e as luzes da cidade começam se acender... Dá vontade de ficar por ali à noite...  Porém o último ônibus 19 sai às  21:30, e não quisemos arriscar a ficar até mais tarde , e depender do ônibus 4, que sai de uma em uma hora, sendo o último à uma da manhã. O jeito é dizer  al riverdeti àquela Babel horizontal e aquática, que apesar de ser caótica, também é poética...


sábado, 6 de junho de 2015

Roteiro para Veneza

Para um dia em Veneza,  é altamente recomendável o seguinte kit básico : um mapa da cidade ( você vai se perder mesmo com ele) , um passe de 24 horas ( que lhe permitirá tomar quantos vaporetos quiser), um chapéu ou boné, caso você vá no fim da primavera como nós), e, muito importante, seu lanchinho básico e uma  garrafa d'água, pois tudo em Veneza é o triplo do preço.
O mapa vai ser útil para marcar os pontos que mais gostou, caso deseje retornar. O passe foi uma grande dica do anfitrião da pousada que ficamos, na Veneza terrestre ( pousada que eu super recomendo). Custa 20 euros mas também serve para o ônibus que interliga com a Veneza propriamente dita. É como você vai se perder mesmo e andar muito, poder embarcar direto no vaporeto em uma das muitas paradas é muito mais prático e econômico, até porque fatalmente uma hora você vai tomar o vaporeto na direção errada...
Veneza é um labirinto de ruelas , pontes e canais. Algo realmente único, diferente, e lembra uma torre de Babel na horizontal, tamanho o burburinho e a quantidade de turistas de todas as nacionalidades. Muito diferente da parte da Veneza terrestre onde ficamos, tranquila como uma pequena cidade , onde ainda se escuta o canto dos pássaros.
Em Veneza, um grande erro (que nós cometemos) é sentar em algum barzinho da Praça São Marcos. Você pagará dez euros numa long neck mal gelada, seis euros pelos músicos , e por aí vai. Tudo em Veneza é muito caro, até os toaletes custam exatamente o triplo do que nos outros lugares que estivemos. E, pasmem, fecham às 19 horas !
Andando a esmo, você irá encontrar um cantinho com o qual se identifique, e aí sim poderá desfrutar da cidade. Encontramos o nosso num local que apelidei de "murinho da Urca". Um canalzinho com barzinhos dos dois lados, onde as pessoas compram bebidas e beliscos, e as levam para o murinho do canal , bem estilo Urca. Como queríamos voltar no dia seguinte a esse ponto, taí a importância do mapa.
Alguns pontos são essenciais de passar para foto,  como a Basílica de São Marcos e o Palácio Ducale. Depois de andar tanto de vaporeto, e de ver tantas gôndolas, confesso que não tive vontade de andar em uma delas ( talvez pelo sol intenso) , e me contentei com mais uma foto de cartão-postal.
A estação de trens Santa Lúcia, na ilha , é moderna e funcional. Há realmente a possibilidade de deixar suas malas ali enquanto passeia-se pela cidade (6 euros pelas primeiras cinco horas, e depois, por fração). Achei organizado, os funcionários digitalizam seu passaporte  e entregam um ticket para a retirada. Tem uma filinha, principalmente na parte da manhã, onde as hordas de turistas chegam em profusão... Na hora da retirada foi tranquilo, até porque fomos com bastante antecedência, preocupados com a hora do trem para Florença. Trem, por sinal, tão bom quanto o TGV!
Ainda em relação ao passe de transporte, com ele é possível ir às ilhas de Murano e Burano. Fomos à primeira , famosa pela produção do vidro que leva seu nome, mas não deu pra explorar muito a ilha, por causa do horário ( e do calor). Minha dica, se você só tiver um dia em Veneza, é ater-se à ilha principal e reservar 80 euros para o passeio de gôndola (caso faça muita questão, pois o preço é fixo por gôndola, não importa se com seis ou dois passageiros). De resto, é perambular mesmo pela Sereníssima, título que era dado somente a reis e nobres, e que é predicado da cidade...

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Nice, Nike, Nikeia

Voltando ao tema das placas em dois idiomas em Nice, e a questão de ter tanto italiano na cidade... o local  já foi da Itália! Várias vezes a cidade trocou de mãos, e isso explica por que os italianos se sentem tão à vontade em Nice!  O segundo idioma nas placas de rua não é italiano, porém. Pesquisei e descobri que é niçoise, algum tipo de dialeto, acho eu, usado na região há tempos atrás. Região que foi habitada, algum séculos antes de Cristo, pelos gregos ! Sim, os gregos vieram e se instalaram, mas não antes de batalhar com o povo local (de origem celta), e devido à tal disputa, na qual os gregos saíram vitoriosos,  a cidade ganhou o nome de Nikeia, em homenagem a Nike,  deus da vitória.
Os romanos chegaram depois (e estão chegando até hoje !). A cidade velha mostra bem isso , com sua arquitetura italiana.  Massas e gelatos são comuns aqui, somados aos frutos do mar.  E o vinho pode ser francês ou italiano, depende de onde você escolher sentar pra almoçar...
Nice tem seu charme.  Assim meio Copacabana, o decadente se misturando ao ar livre da Promenade e ao mar, que equaliza todas as coisas. Nice tem também muitas áreas de lazer , e uma galera bonita  que corre no calçadão e que anda de bike, casais com crianças,  e velhos que se sentam ao sol nas cadeiras de ferro pintadas de azul, de frente pro mar.  Gente de todas as idades dirigindo suas scooters, e hotéis à beira-mar, com suas fachadas grandiosas como o Negresco, e que atraem o ofício dito " o mais velho do mundo".  Praia de pedrinhas que machucam os pés dos desavisados, e banheiros  públicos a cinquenta centavos, limpos e honestos. Uma localização privilegiada, próxima a pérolas medievais como Èze e St. Paul de Vence, ou a perfeita Mônaco.
Aprovada como base na Côte D'Azur?  Sim, aprovada!

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Entre o lindo e o mágico

Visitamos duas pequenas vilas medievais no mesmo dia.  Primeiro, a uns 13 km de Nice, Saint Paul de Vence; já no fim da tarde, Èze, a uma distância mais ou menos parecida, mas para o lado do mar.
Que bom que foi assim. Saint Paul surge na estrada à sua esquerda, no alto de uma elevação rochosa, e você fica se perguntando como fazer para chegar lá. Realmente é necessário avançar em direção à cidade de Vence, e retornar, somente na descida se tem acesso à vila. Que é uma graça, claro. Toda murada e cheia de lojinhas de arte, Saint Paul é assim mais refinada, já que muitos pintores e artistas a elegeram como moradia ou inspiração. Restaurantezinhos charmosos, e logo na entrada do centro murado você pode estudar o mapa  do conjunto histórico e percorrer as ruas a partir de um roteiro numerado. Nada de quinquilharias e souvenirs aqui, tudo de bom gosto, ao meio de construções de pedra e muros floridos. Um localzinho realmente incrível, até você chegar a Èze.
A diferença ente as duas vilas é que Èze é mágica. Poucas lojinhas, muito mais casas, escadinhas, ruazinhas curvas que escondem recantos floridos, passagens em arcos de pedra. De repente, no cantinho de um muro, a entradinha para um hotel cinco estrelas. Discreto, claro, porque Èze é assim, docemente misteriosa. Num outro nicho de pedra, em uma janelinha, um rapaz vende azeites em latinhas decoradas, aromatizados com alho, especiarias e manga, oferecendo uma prova dos mesmos numa minúscula colher.  Com detalhes que nos fazem acreditar que estamos numa janela do tempo, Èze é uma mistura da Vila de Bri e do Condado, entende quem vive no mundo de Tolkien.  Parece que a qualquer momento um hobbit vai passar correndo e entrar em uma das casas de pedra! Batendo a pequena porta de madeira.  Emoldurando todo esse ambiente, flores nas janelas e muros, o sino da igreja tocando,  e , lá embaixo, o azul do Mediterrâneo.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Monaco


Mônaco é uma cidade... de filme.  Ou de televisão, onde costumamos vê-la nas transmissões de Fórmula 1.  Aliás, as estruturas das arquibancadas estavam sendo desarmadas, deve ter havido alguma corrida nos últimos dias. Super legal ver os guardrails nas ruas e passar naquele túnel onde vimos o Senna passar!
Mônaco é toda certinha, uma mistura do velho e do novo, tudo limpinho, tudo bem tratadinho, lojas chiquérrimas convivendo tranquilamente com a parte histórica da cidade. Há lojas e restaurantes para todos os bolsos, entretanto, e tirar um dia para flanar pela cidade pode ser muito divertido. Lá no alto do rochedo, o Musée de Oceanographie é um show, tanto pela construção e visual, como pelo acervo interativo. O Cassino é aquela coisa, você vai lá e tira uma foto, porque ninguém tá aqui pra perder seus suados eurinhos em máquinas caça-níqueis ou coisa que o valha. O ônibus sight-seeing ( aquele que você vai em cima, ao ar livre) é uma boa pedida (embora caro , 21 euros por pessoa) , pois você pode saltar e voltar a subir nos pontos de parada ( mão na roda pra chegar ao museu de oceanografia, lá no alto).  Atenção somente aos horários, como em outras atrações lá em Nice, o último ônibus para de rodar às 18 horas!  O que é meio absurdo, já que o sol se põe quase às nove da noite.
O caminho de Nice a Mônaco também é super agradável , a gente tentou ir pela Basse Cornice mas acho que fomos mesmo pela Corniche do meio, que passa em Èze.  Mas Èze, Èze é  umaoutra história...

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Nice à noite e de dia

Tive que ir pra internet para poder entender melhor Nice, e o porquê das placas nas ruas do centro histórico em dois idiomas, francês e um outro, que não consegui identificar.  O áudio na viagem do trenzinho turístico ( não o trem elétrico, com teremos no Rio, pois esse é mesmo para transporte público, para locais mais distantes da cidade) estava horrível , e preferi pesquisar por minha conta...
Nice é uma cidade com muito pra se ver, é certo.  Como nossa primeira saída aqui foi à noite, a minha primeira impressão não foi boa. Tá certo, a escolha do local do hotel não foi a melhor ( perto do aeroporto mas longe de tudo) e uma greve parcial de ônibus local (!) complicou um pouco nossa vida no primeiro dia. À noite, os restaurantes lotados do centro ( afinal era sábado) , servindo caldeirões de mexilhões (irc) e frutos do mar, e o movimento na orla tipo Copacabana ( com as "primas" inclusive) me fez pensar se tinha sido uma boa escolha fazer Nice de base. Acabamos  comendo um sanduíche no Subway ( thanks for the american way of life) e conseguimos pegar um extorsivo táxi até o hotel, já que, além da greve, os ônibus param de circular às oito e meia da noite , quando aqui ainda está claro.
Dia seguinte, sol brilhando, domingo, tudo ficou diferente. Aqui na França, esse último domingo de maio é a " Fête de la Mére" (Dia das Mães) e o dia realmente estava lindo para se ficar ao ar livre. Famílias, jovens e velhos enchiam a Promenade , e as muitas áreas de lazer da cidade. Pra completar, uma feira italiana no calçadão trazia mais animação ao local. Nice é uma praia sem areia, de pedrinhas, mas com aquelas possibilidades de local turístico ( alugar jetski, passear de pára-quedas puxado por lanchas, etc) . Os habitantes locais divertem-se no entanto nas áreas de lazer, com muitas opções para as crianças. Muitas crianças e famílias por aqui, como no domingo em Paris, de bicicleta, patinetes (muitos) e adolescentes com seus skates.

A ponte de Avignon

Engana-se quem pensa que Avignon é monocromático no tom amarelo de seus muros e construções .  As águas do Ródano trazem um colorido à cidade, e na ilha que há no meio do rio, um parque verde de lazer oferece gramados para piquenique, ciclovia e banquinhos na margem do rio. Rio que, se hoje está domado por cinco barragens, no passado era considerado um deus, devido à fúria de suas enchentes.
Diz a lenda que um pastor bem jovem, de nome Benezèt , ouviu uma orientação divina para ir até a cidade dos Papas e informar que fosse construída uma ponte que ligasse Avignon a Villenueve, na outra margem. O que parecia impossível, devido à impetuosidade do rio. Para comprovar sua "missão divina" , Benezèt ergueu uma pesada pedra , que ninguém antes conseguira mover ( bem no estilo Rei Arthur, hem) e essa foi a pedra fundamental da construção da ponte. Uma outra  versão, menos novelesca,  realmente confirma a existência de um Benezèt, que possuía terras por ali e vislumbrou a importância de ligar as duas cidades. Seja de um jeito ou de outro, conta a história (ou a lenda) que Benezèt morreu jovem, durante a construção da ponte, e foi então erguida uma capela no segundo arco, onde foram depositados seus restos mortais. O povo começou logo uma romaria ao local, é daí pro falecido virar santo foi um pulo.
Enchentes e invasões destruíram a ponte. No lado de lá, restou apenas a torre. Do lado de Avignon, ainda se visita à capela no segundo arco, de onde os restos de Benezèt foram removidos. O monumento encontra-se , ao que parece, em constante reforma e estudos. Na atualidade, cinco grandes laboratórios de pesquisa uniram esforços para recriar digitalmente a ponte, e assim desvendar mais mistérios da época . Essa recriação digital pode ser vista numa salinha de cinema nas instalações do lugar, e é como um jogo 3D,  que vale a pena assistir.